terça-feira, 20 de outubro de 2009

HELGA

4- Helga ... ou resquícios do divã

1. O narrador traz no primeiro parágrafo um quadro descritivo da personagem Helga.

Ela era um só. Não havia outra e se quisesse compará-la com alguma coisa,seria com os tenros cogumelos dos bosques ou com as manhã de bicicleta nas estradas impecáveis ou com as primeiras cerejas da primavera. Era uma, uma, única, apesar de ter uma só perna, aliás bela como ela toda. Mas é cedo para falar não sobre sua beleza — que deve ser lembrada sem enfado quantas vezes for necessário — mas cedo para falar sobre a perna que vai exigir explicação. A perna envolve viagem, guerra, a perna vai tão além... Sem esclarecimento tudo será apenas crueldade. (p.37)

2. Em seguida, ele se apresenta: Paulo Silva, brasileiro. Mas fui alemão. Filho de alemã de Santa Catarina e desse Silva brasileiro que não cheguei a conhecer (...) Mas alemã mal vista porque se casou com o Silva, Paulo também, o que me faria Paulo Silva Filho. Mas nada disso vigorou, na escola eu já era Paul Karsten...

3. Depois das apresentações, interrompe a narrativa: “[...] Tudo aconteceu porque a terceira viagem foi no verão de 1939. Não vou contar minha guerra, Polônia, França, Grécia, Rússia...” e se volta para o título do conto, mas não prossegue; criando assim uma espécie de suspense no leitor —

A beleza de Helga e a sua perna. Confesso que durante muito tempo não sei em qual pensei mais, se na que tinha ou se na que perdera. Mas é cedo. (p.38)

4. Curioso é que hoje já não consigo lembrar qual perna que Helga perdera, se a direita ou a esquerda. E dizer que durante anos não houve dia nem hora que Helga não aparecesse no meu pensamento. Acha meu psicanalista que os esquecimentos parciais são freqüentemente formas sutis de autopunição. (p.38)

5. Assim que acaba a guerra, o narrador vende o capacete e seu punhal com a cruz suástica a um funcionário brasileiro. Depois disso, impossibilitado de voltar ao Brasil, torna-se uma espécie de comerciante do pós-guerra, aproveitando-se da identidade alemã: Paul karsten — o contato com Helga.

6. Cacos da guerra e ferida irônica
“(...) Revivo o tempo da contemplação de sua beleza e depois os interesses de fundo desejo. E lembro muito do casamento. Quanto ao amor por Helga, afirma o analista que não passa de um recurso autopunitivo que resolvi imaginar. O fato é que me casei e na própria madrugada de núpcias fugi para Hamburgo levando a perna ortopédica que em seguida vendi.” (p.42-43)

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