7. A caçada
A loja de antiguidades tinha o cheiro de uma arca de sacristia com seus panos embolorados e livros comidos de traça. Com as pontas dos dedos, o homem tocou uma pilha de quadros. Uma mariposa levantou voo e foi chocar-se contra uma imagem de mãos decepadas. ESTRANHAMENTO
ESTRANHO, MAS FAMILIAR
“A velha encarou-o. E baixou o olhar para a imagem de mãos decepadas. O homem estava tão pálido e perplexo quanto a imagem.”
O TÍTULO
Era uma caçada. No primeiro plano, estava o caçador de arco retesado, apontando para uma touceira espessa. Num plano mais profundo, o segundo caçador espreitava por entre as árvores do bosque, mas esta era apenas uma vaga silhueta cujo rosto se reduziria a um esmaecido contorno. Poderoso, absoluto era o primeiro caçador, a barba violenta como um bolo de serpentes, os músculos tensos, à espera de que a caça levantasse para desferir-lhe a seta.
Degradante aos olhos da rotina, MAS
- Parece que hoje está mais nítida...
- ..........................
- As cores estão mais vivas. A senhora passou alguma coisa nela?
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- Parece que hoje tudo está mais próximo disse o homem em voz baixa. – É como se... Mas está diferente?
“Parece coisa de doido”
Encontrou a velha na porta da loja. Sorriu irônica:
- Hoje o senhor madrugou.
- A senhora deve estar estranhando, mas...
- Já não estranho mais nada, moço. Pode entrar, pode entrar, o senhor conhece o caminho.
Quando a ficção vira realidade... ou o contrário?
E aquele cheiro de folhagem e terra, de onde vinha aquele cheiro? E por que a loja foi ficando embaçada, longe? Imensa, real só a tapeçaria a se alastrar sorrateiramente pelo chão, pelo teto, engolindo tudo com suas manchas esverdinhadas. (...) Estava dentro do bosque, os pés pesados de lama, os cabelos empastados de orvalho.
Quase real
Era o caçador? Ou a caça? Não importava, não importava, sabia apenas que tinha que prosseguir correndo sem parar por entre as árvores, caçando ou sendo caçado. (...) Vertia sangue o lábio gretado.
Ouviu o assobio da seta varando a folhagem, a dor!
“Não...” – gemeu de joelhos. Tentou ainda agarrar-se à tapeçaria. E rolou encolhido, as mãos apertando o coração.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
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